
Stamos em pleno mar...Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca as ardentias,
- Constelações do líquido tesouro...
Era um sonho dantesco...o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros...estalar de açoite...
Legiões de homen negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, nuas e espantadas
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoas vãs!
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro...ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! Noites! Tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e convardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripuda?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Comlombo! fecha a porta dos teus mares!
Castro Alves
20 de novembro - Dia da consciência negra!